Como repensar a masculinidade ajuda a construir uma sociedade mais igualitária

Em Cotidiano por Nex CoworkingFaça um Comentário

Um espaço em que 20 homens falam sobre sentimentos e angústias. Reuniões para que eles possam desabafar e contar histórias que, em muitos casos, nunca compartilharam antes. Parece incomum? Não é à toa. “Para sermos vistos como ‘homem de verdade’ a gente precisa reproduzir um comportamento padrão que não é benéfico para ninguém – nem para nós mesmos. Não podemos demonstrar sentimentos e a única emoção que a gente pode mostrar é raiva, e se expressar através da violência”, comenta Pedro de Figueiredo Scneider, publicitário e criador do MEMOH, projeto que reúne homens para refletirem sobre a masculinidade, seu modo de agir consigo e com o outro, com o objetivo de promover a equidade de gênero.

O MEMOH, além de um espaço de reflexão, é um movimento político, uma forma de militância. A ideia central do grupo nasce da crença de que pensar e desconstruir a masculinidade tal qual é ensinada aos homens desde cedo é um dos principais aspectos para gerar uma verdadeira mudança na sociedade. Para Pedro, os homens precisam assumir a responsabilidade e entender que também são parte dos problemas de gêneros: “Dizemos que somos homens incomodados. Já nos reconhecemos machistas em algum nível e sabemos que alguns comportamentos não são adequados em certos aspectos”. Menos de dois anos após sua criação, em julho do ano passado, o grupo já conta com 100 homens participantes no Rio de Janeiro.

Mas como é essa construção de masculinidade? O autor Tony Porter fala sobre essa “Man Box”, ou seja, uma “caixa” de características que todos os homens devem ter – não ser vulnerável, exposta na famosa frase “homem não chora”, ser o provedor e másculo são apenas algumas delas. Quem não atende a essa expectativa é julgado, em especial por outros homens, e tido como gay – já que não se enquadra no que se espera de um “homem de verdade”. “O homem é o protagonista da violência de gênero – seja o gênero que for. O homem violenta mulheres, minorias, outros homens e até ele próprio. Eu quero que os homens se atentem aos seus comportamentos pois tem pessoas que morrem por conta deles. Eu quero ser um apoiador dessas questões tratando o meu comportamento – se eu sou parte do problema, posso ser parte da solução também”, ressalta o publicitário. “Acredito que grande parte de nós é babaca porque não sabe ser de outra forma”.

Com um padrão sendo ensinado desde tão cedo, é difícil não reproduzir esses comportamentos até mesmo sem perceber – reside aí a necessidade de refletir sobre o quão tóxica essa masculinidade pode ser. Para que uma mudança efetiva aconteça, é preciso estar sempre atento e disposto a ouvir e repensar: “Estamos tão presos nessa caixa que mesmo os homens “bons”, que tem boas intenções, permitem que essa violência de gênero aconteça”, pondera Pedro. Outro ponto importante é cada homem assumir essa luta sem a necessidade de ter uma mulher indicando o que fazer.

“A gente acha que essa questão de gênero é só da mulher e população LGBT, o homem acha que é o ser universal, que representa o mundo. Então é necessário que a gente pare de usar a mulher como bengala ou como professora e busque essa mudança por conta própria”, finaliza.

O grupo também leva em conta que existem vários tipos de masculinidade e entende que homens gays e trans, por exemplo, sofrem outras influências e têm outras angústias. As reuniões são realizadas quinzenalmente e tem participantes de 18 a 62 anos – mas sem nenhuma restrição. Com o feedback que recebe, Pedro acredita que está no caminho certo: “Eu escuto que o MEMOH é um espaço de cura. Um dos participantes, negro, morador de uma favela, me disse que lá recebeu pela primeira vez um abraço de verdade de outro homem. Outro me disse que conversar sobre sentimentos com outros homens é um ato revolucionário”. O projeto tenta criar um ambiente em que eles possam falar sobre quaisquer assuntos sem achar que serão julgados ou menosprezados por isso. “O objetivo do MEMOH é conseguir criar um senso de pertencimento entre homens que não seja falando sobre putaria, churrasco e futebol”, afirma o publicitário.

A luta e reflexão deve ser constante, mas Pedro elenca alguns pontos iniciais para quem quer construir uma sociedade com mais equidade de gênero:

– Ouvir com atenção o que as mulheres estão dizendo. Pode parecer uma dica óbvia, mas a escuta ativa é um exercício constante e diário.

– Antes de rebater, refletir. Ao invés de argumentar de imediato e tentar se defender, pensar no que aquilo representa, porque causa incômodo em outras pessoas.

– Reconhecer a questão. Assumir a responsabilidade de seus atos e admitir que tem certas atitudes que são negativas.

– Correr atrás e se esforçar para mudar os comportamentos que podem ser prejudiciais para si próprio e para os demais.

* * *

Os encontros são quinzenais e gratuitos. Cada encontro reúne até 20 homens e são três grupos fixos no Rio de Janeiro – um deles na nossa unidade, na Ladeira da Glória, 26. Você pode conferir mais informações no site ou na página no Facebook.

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